Quando falamos em cirurgia de gliomas, muitas pessoas imaginam que o objetivo seja apenas remover aquilo que aparece claramente na ressonância magnética. No entanto, em alguns casos, o tumor ultrapassa os limites visíveis do exame. É a partir dessa observação que surge o conceito de cirurgia supratotal: uma ressecção que vai além da lesão identificada nas imagens, alcançando áreas vizinhas que podem conter infiltração microscópica do tumor.
A ideia por trás dessa abordagem é simples: se os gliomas infiltram o cérebro ao redor, retirar apenas a parte mais evidente pode não ser suficiente para alcançar o melhor controle possível da doença. Em tumores selecionados, especialmente em algumas regiões não eloquentes do cérebro e em pacientes cuidadosamente avaliados, a ressecção supratotal pode estar associada a melhor controle de crises epilépticas e a maior tempo de sobrevida livre de progressão.
Apesar disso, esse é um tema que ainda gera debate. A principal controvérsia está justamente na dificuldade de definir, de forma objetiva, o que seria “além do tumor” e até que ponto essa ampliação da ressecção pode ser feita sem comprometer funções neurológicas. Nem todo paciente é candidato a esse tipo de cirurgia, e nem todo tumor permite essa estratégia. Além disso, boa parte das evidências disponíveis vem de estudos retrospectivos, o que exige cautela na interpretação dos resultados.
Na prática, a cirurgia supratotal não deve ser entendida como uma regra, mas como uma possibilidade em casos bem selecionados. O conceito reforça uma ideia central da neurocirurgia oncológica atual: não basta pensar apenas em retirar o tumor visível, mas em compreender seu comportamento biológico e sua relação com o cérebro ao redor. O desafio está em ampliar o tratamento oncológico sem ultrapassar os limites da segurança funcional.
Referência:
Karschnia P, Young JS, Wijnenga MMJ, Sciortino T, Teske N, Corell A, et al. A prognostic classification system for extent of resection in IDH-mutant grade 2 glioma: an international, multicentre, retrospective cohort study with external validation. Lancet Oncol. 2025;26(12):1638-50. doi:10.1016/S1470-2045(25)00432-7.


