A cirurgia de tumores cerebrais exige não apenas a retirada do tumor, mas também a preservação das funções neurológicas. Para isso, a neurocirurgia moderna conta com a monitorização neurofisiológica intraoperatória, uma tecnologia que permite acompanhar, em tempo real, o funcionamento do sistema nervoso durante todo o procedimento.
O que é a monitorização neurofisiológica?
A monitorização neurofisiológica intraoperatória utiliza estímulos elétricos e registros específicos para avaliar, durante a cirurgia, a integridade de vias neurais responsáveis por funções como movimento, sensibilidade, visão e audição.
Enquanto o neurocirurgião opera, uma equipe especializada monitora continuamente essas respostas, alertando imediatamente caso haja qualquer alteração que indique risco de lesão neurológica – um “sistema de alerta em tempo real”.
Mapeamento cerebral: identificando áreas importantes
O mapeamento consiste na estimulação direta de áreas do cérebro para identificar regiões responsáveis por funções essenciais. Para isso, o neurocirurgião utiliza uma caneta de estimulação, um instrumento que emite pequenos estímulos elétricos controlados.
Ao estimular uma determinada área, a equipe observa: alterações nos movimentos; mudanças na fala; respostas sensoriais; ativações de nervos…
Essas respostas indicam que aquela região deve ser preservada durante a cirurgia.
Monitorização contínua: proteção durante toda a cirurgia
Além do mapeamento pontual, a monitorização neurofisiológica ocorre de forma contínua. Para isso, são posicionados eletrodos no couro cabeludo e em músculos específicos, dependendo da função que se deseja acompanhar.
Esses eletrodos registram sinais elétricos do sistema nervoso, como:
- Potenciais evocados motores (relacionados ao movimento);
- Potenciais evocados sensitivos;
- Outras respostas neurológicas específicas.
Qualquer alteração significativa nesses sinais é detectada imediatamente, permitindo que o cirurgião ajuste a estratégia antes que ocorra uma lesão permanente.
Tudo isso dói?
Não. O paciente não sente dor relacionada à estimulação cerebral. Quando o procedimento é realizado com o paciente acordado, a estimulação pode provocar interrupções momentâneas da fala ou pequenos movimentos, o que é esperado e ajuda a identificar áreas importantes. Em cirurgias com o paciente dormindo, a monitorização é feita de forma totalmente passiva, sem desconforto.
Por que isso aumenta a segurança?
A combinação de mapeamento com caneta de estimulação e monitorização contínua por eletrodos permite uma cirurgia muito mais segura. O neurocirurgião consegue retirar o tumor com maior precisão, reduzindo o risco de déficits neurológicos e preservando a qualidade de vida do paciente.
Nem todo tumor precisa desse tipo de monitorização
É importante esclarecer que nem todo tumor cerebral exige monitorização ou mapeamento neurofisiológico intraoperatório. A indicação depende de vários fatores, como a localização do tumor, sua proximidade com áreas responsáveis pela fala, pelos movimentos ou pela sensibilidade, além das características individuais de cada paciente.
Em tumores localizados em regiões afastadas de áreas funcionais importantes, a cirurgia pode ser realizada com segurança sem a necessidade desse tipo de monitorização. Por outro lado, quando o tumor está próximo ou envolve áreas críticas do cérebro, a monitorização neurofisiológica torna-se uma ferramenta valiosa para aumentar a segurança do procedimento.
A decisão de utilizar ou não essas técnicas é sempre individualizada e tomada pelo neurocirurgião com base nos exames de imagem, na avaliação clínica e na estratégia cirúrgica mais adequada para cada caso.
Em resumo
A monitorização e o mapeamento neurofisiológico intraoperatórios são ferramentas essenciais na cirurgia moderna de tumores cerebrais em áreas eloquentes (funcionais). Eles permitem identificar e proteger áreas fundamentais do cérebro, tornando a cirurgia mais precisa, segura e personalizada para cada paciente.
Referência
Mirza A, Vastani A, Suvarnad R, Rashed S, Al-Omarie A, Mthunzi E, et al. Preoperative and intraoperative neuromonitoring and mapping techniques impact oncological and functional outcomes in supratentorial function-eloquent brain tumours: a systematic review and meta-analysis. EClinicalMedicine. 2024.


