Schwannomas vestibulares

Os schwannomas vestibulares, também conhecidos como neurinomas do acústico, são tumores geralmente benignos e de crescimento lento. Eles se desenvolvem a partir das células de Schwann, responsáveis por revestir e proteger os nervos.

Apesar do nome tradicional “neuroma acústico”, o tumor normalmente se origina na porção vestibular do oitavo nervo craniano, relacionada ao equilíbrio, e não diretamente na porção responsável pela audição. À medida que cresce, pode afetar os nervos da audição e do equilíbrio, além de comprimir outras estruturas próximas.

Onde eles aparecem?

O schwannoma vestibular geralmente começa no conduto auditivo interno, um pequeno canal ósseo por onde passam os nervos responsáveis pela audição (coclear), pelo equilíbrio (vestibular) e pelos movimentos da face (facial).

Com o crescimento, o tumor pode se estender para o ângulo pontocerebelar, região localizada entre o cerebelo e o tronco cerebral.

Tumores pequenos podem permanecer limitados ao conduto auditivo interno. Tumores maiores podem comprimir o cerebelo, o tronco cerebral e outros nervos cranianos. Em casos avançados, também podem interferir na circulação do líquor e causar hidrocefalia.

Eles são tumores benignos?

Na maioria dos casos, os schwannomas vestibulares são tumores benignos. Isso significa que não produzem metástases para outros órgãos e geralmente apresentam crescimento lento.

Entretanto, mesmo sendo benignos, podem causar problemas importantes em razão de sua localização. O crescimento dentro de uma região limitada do crânio pode provocar perda auditiva, alterações do equilíbrio, comprometimento do nervo facial e compressão do tronco cerebral.

Por isso, o comportamento do tumor deve ser avaliado não apenas por sua classificação, mas também por seu tamanho, velocidade de crescimento, sintomas e relação com as estruturas neurológicas próximas.

Existe relação com alguma condição genética?

A maioria dos schwannomas vestibulares ocorre de forma isolada, geralmente em apenas um lado. A presença de tumores nos dois lados, especialmente em pacientes jovens, pode estar associada à schwannomatose relacionada ao gene NF2, chamada de neurofibromatose tipo 2.

Essa é uma condição genética que pode provocar schwannomas vestibulares bilaterais, outros schwannomas pelo corpo, meningiomas e tumores em diferentes regiões do sistema nervoso. Pacientes com tumores bilaterais, múltiplos ou diagnosticados em idade jovem podem necessitar de avaliação genética e acompanhamento específico.

Quais são os sintomas?

Os sintomas dependem do tamanho do tumor, da velocidade de crescimento e das estruturas comprimidas. A manifestação mais comum é a perda auditiva em apenas um ouvido, geralmente progressiva. Em alguns pacientes, a perda pode ocorrer de forma súbita ou variar ao longo do tempo.

Outros sintomas frequentes incluem:

  • zumbido em um dos ouvidos;
  • sensação de ouvido tampado;
  • tontura;
  • desequilíbrio;
  • instabilidade ao caminhar.

A dificuldade para compreender a fala pode ser desproporcional à redução identificada na audiometria. Algumas pessoas percebem dificuldade principalmente ao falar ao telefone ou ouvir em ambientes com ruído.

Tumores maiores também podem causar:

  • dormência ou formigamento na face;
  • dor facial;
  • fraqueza ou paralisia facial;
  • visão dupla;
  • dificuldade para engolir;
  • alterações da coordenação;
  • dores de cabeça;
  • náuseas e vômitos;
  • dificuldade progressiva para caminhar.

Quando há compressão importante do tronco cerebral ou hidrocefalia, o quadro pode se tornar grave e exigir tratamento urgente.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico geralmente começa com uma avaliação da audição. A audiometria permite identificar perda auditiva e avaliar a capacidade de compreender palavras.

O principal exame para confirmar o diagnóstico é a ressonância magnética do encéfalo e dos condutos auditivos internos, geralmente realizada com contraste. Esse exame permite visualizar tumores pequenos, avaliar sua extensão e analisar sua relação com o nervo facial, o tronco cerebral, o cerebelo e as demais estruturas próximas.

Qual é o tratamento?

Existem três estratégias principais:

  • acompanhamento com exames periódicos;
  • radiocirurgia estereotáxica;
  • cirurgia.

A escolha depende de diversos fatores, incluindo:

  • tamanho do tumor;
  • presença de crescimento;
  • intensidade dos sintomas;
  • nível de audição;
  • idade e condições clínicas;
  • compressão do tronco cerebral;
  • preferência do paciente;
  • experiência da equipe responsável.

Não existe um tratamento único adequado para todos os pacientes. A decisão deve ser individualizada e discutida por uma equipe com experiência em tumores da base do crânio.

Quando o tumor pode ser apenas acompanhado?

Tumores pequenos, com poucos sintomas e sem compressão significativa podem ser acompanhados por meio de ressonâncias magnéticas e avaliações auditivas periódicas. Essa estratégia é conhecida como observação ou vigilância ativa.

O acompanhamento pode ser especialmente apropriado para:

  • tumores pequenos;
  • pacientes idosos;
  • pessoas com condições clínicas que aumentam o risco de tratamento;
  • tumores descobertos por acaso;
  • lesões sem crescimento documentado;

A observação não significa abandonar o tratamento. O objetivo é verificar o comportamento do tumor e intervir caso haja crescimento, piora da audição ou aparecimento de novos sintomas. Mesmo tumores que não apresentam crescimento evidente podem estar associados à redução progressiva da audição. Por isso, a avaliação deve incluir não apenas a ressonância, mas também exames auditivos.

Quando a radiocirurgia é utilizada?

A radiocirurgia estereotáxica utiliza radiação altamente focalizada para controlar o crescimento do tumor. Apesar do nome, não envolve abertura do crânio. O objetivo principal não é retirar o tumor, mas impedir que ele continue crescendo. Em alguns casos, pode ocorrer redução gradual do volume ao longo do tempo.

A radiocirurgia pode ser considerada principalmente para:

  • tumores pequenos ou de tamanho intermediário;
  • pacientes com maior risco cirúrgico;
  • tumores residuais após cirurgia;
  • recorrências;
  • pacientes que preferem uma opção menos invasiva.

Após a radiocirurgia, o paciente continua necessitando de acompanhamento prolongado com ressonâncias e audiometrias. Embora a radiocirurgia proporcione elevado controle tumoral, a audição pode piorar gradualmente ao longo dos anos em uma parcela dos casos. O resultado depende de fatores como audição inicial, tamanho do tumor e dose recebida pela cóclea.

Quando a cirurgia é indicada?

A microcirurgia pode ser indicada quando o tumor:

  • apresenta dimensões maiores, comprime o tronco cerebral e/ou causa hidrocefalia;
  • apresenta crescimento progressivo de forma significativa;
  • provoca sintomas neurológicos progressivos;
  • pacientes jovens.

O objetivo pode ser a retirada completa ou parcial do tumor, dependendo de sua aderência aos nervos e das condições encontradas durante o procedimento.

Em alguns casos, deixar uma pequena parte aderida ao nervo facial pode ser mais seguro do que insistir na remoção completa e aumentar o risco de paralisia facial. O tumor residual pode ser acompanhado ou tratado posteriormente com radiocirurgia.

A cirurgia é realizada com técnicas microcirúrgicas e monitorização intraoperatória dos nervos cranianos, especialmente dos nervos facial e coclear.

Quais são os acessos cirúrgicos?

Existem três acessos principais:

Acesso retrosigmoide: é realizado por trás da orelha e permite alcançar o ângulo pontocerebelar. Pode ser utilizado em tumores de diferentes tamanhos e, em pacientes selecionados, permite tentativa de preservação auditiva. É o acesso mais realizado em nossa prática.

Acesso translabiríntico: é realizado através das estruturas do ouvido interno. Oferece ampla exposição do nervo facial, mas provoca perda definitiva da audição no lado operado. Por isso, geralmente é utilizado quando a audição já não é funcional ou não pode ser preservada. Trata-se de uma opção mais invasiva de acesso cirúrgico.

Acesso pela fossa média: é realizado acima do ouvido e pode ser utilizado em tumores pequenos, principalmente aqueles localizados no conduto auditivo interno, quando existe possibilidade de preservação da audição.

A escolha do acesso depende do tamanho e da localização do tumor, da audição existente, da anatomia individual e da experiência da equipe. As evidências disponíveis não demonstram que um único acesso seja superior em todas as situações.

Quais são os riscos da cirurgia?

Os riscos variam conforme o tamanho do tumor, sua aderência aos nervos, a audição antes da cirurgia e as condições clínicas do paciente.

Entre os principais riscos estão:

  • perda ou piora da audição;
  • fraqueza ou paralisia facial;
  • alterações do equilíbrio;
  • dormência facial;
  • vazamento de líquor (fístula);
  • infecção ou meningite;
  • dificuldade para engolir;
  • sangramento;

A preservação do nervo facial é um dos principais objetivos da cirurgia. De modo geral, tumores menores estão associados a melhores possibilidades de preservação da função facial e, em casos selecionados, da audição.

É possível preservar a audição?

A preservação da audição depende de diversos fatores:

  • qualidade da audição antes do tratamento;
  • tamanho do tumor;
  • localização dentro do conduto auditivo;
  • presença de crescimento;
  • relação com o nervo coclear;
  • modalidade de tratamento;
  • experiência da equipe.

Mesmo com observação, radiocirurgia ou cirurgia, a audição pode diminuir ao longo do tempo. Dados contemporâneos mostram que a possibilidade de manter audição funcional tende a cair progressivamente durante o acompanhamento, independentemente da estratégia escolhida.

O tratamento deve considerar não apenas a tentativa de preservar a audição atual, mas também o controle tumoral, a proteção do nervo facial e a qualidade de vida.

Quando ocorre perda auditiva, podem ser avaliadas opções de reabilitação, como: aparelhos auditivos; sistemas de transmissão sonora para o ouvido contralateral; dispositivos de condução óssea; implante coclear em pacientes selecionados.

Qual é o prognóstico?

O prognóstico costuma ser favorável, principalmente quando o tumor é diagnosticado antes de causar compressão neurológica importante. Tumores pequenos podem permanecer estáveis por longos períodos. A cirurgia pode proporcionar descompressão imediata e controle definitivo.

Como é o acompanhamento?

O acompanhamento é necessário após qualquer estratégia, inclusive quando o tumor foi removido cirurgicamente.

Geralmente são realizadas ressonâncias magnéticas periódicas e udiometrias.

O intervalo entre os exames depende do tamanho do tumor, da presença de crescimento, do tipo de tratamento realizado e dos resultados anteriores.

Após a radiocirurgia, o tumor pode apresentar aumento transitório nas primeiras ressonâncias, sem que isso represente necessariamente falha do tratamento. Por esse motivo, os exames devem ser interpretados por profissionais familiarizados com a evolução radiológica após a radiação. Nos pacientes com schwannomatose relacionada ao NF2, o acompanhamento costuma ser mais amplo e frequente, pois podem existir tumores bilaterais ou outras lesões no sistema nervoso.

Em resumo

Os schwannomas vestibulares são tumores geralmente benignos e de crescimento lento, que surgem nos nervos relacionados ao equilíbrio e se desenvolvem no conduto auditivo interno e no ângulo pontocerebelar.

Os sintomas mais frequentes são perda auditiva unilateral, zumbido e alterações do equilíbrio. Tumores maiores podem comprometer o nervo facial, o cerebelo e o tronco cerebral.

O diagnóstico é realizado principalmente por ressonância magnética e avaliação auditiva. O tratamento pode envolver acompanhamento, radiocirurgia ou microcirurgia, de acordo com o tamanho do tumor, seu crescimento, os sintomas, a audição e as características de cada paciente.

A escolha da melhor estratégia deve ser individualizada, buscando equilibrar o controle do tumor com a preservação da audição, do nervo facial e da qualidade de vida.

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